A Raça Garrana

Padrão da Raça

O Garrano pertence ao Tronco Céltico segundo a classificação de cavalos formulada por Ewart (1911). A este tronco pertencem também outras raças da Península Ibérica: o Asturcon (Astúrias), Pottoka (País Vasco) e o Cavalo Galego do Monte (Galiza), bem como outros póneis Europeus - Exmoor, Dartmoor, Highland, Connemara ou Shetland.

Ewart descreve o pónei celta (Equus caballus celticus) como um cavalo de pequena altura, de cabeça pequena e ligeiramente achatada, orelha curta, garupa descaída, pelo comprido e abundante em todo o corpo particularmente nas queixadas (Inverno), crinas abundantes e grossas.

A raça Garrana, inserida por Bernardo Lima no tipo céltico, diferencia-se por caracteres somáticos, cranianos e dentários, partilhados com outros póneis celtas e transmitidos a outras raças. Destacamos o tipo mediolíneo ou sub-brevilíneo, elipométrico; a pelagem castanha; a altura ao garrote inferior a 1,35 m; o perfil recto ou sub-côncavo; o crâneo com crista occipital curta, pouco saliente em relação aos côndilos; a parte superior da fronte convexa; a mandíbula grossa e potente, com dentes desenvolvidos e característicos (molares com protocone central, alongado, talonado, margem sulcada, seio labial largo e simples, sem prega cabalina, estilos simples; ocorrência de caninos nas fêmeas (sinal de arcaísmo da raça); a garupa simples; a cauda farta de inserção baixa; as pernas sólidas e robustas; as canelas curtas; os cascos rijos e pretos.

Algumas particularidades ósseas permitem distinguir os cavalos de influência celta daqueles com influência oriental, também de perfil recto ou côncavo (árabe): fronte mais estreita e plana e nasais mais altos em relação aos maxilares, conferindo ao focinho maior grossura e pouca elevação do ramo ascendente do mandibular, resultando, de perfil, uma cabeça que se aproxima do rectângulo.

Exemplares pernaltas, de perfil convexo, com excesso de garra nas extremidades, pelagens estranhas ou particularidades (malhas) reflectem cruzamentos com outras raças exóticas.

Actualmente o estalão racial aprovado é o seguinte:

Denominação original - Tieldões

Tipo - Hipermétrico (peso cerca de 290 kg) e mediolíneo.

Altura - Medida ao garrote, com hipómetro, nos animais adultos (3 anos para as fêmeas e 4 anos para os machos). O máximo permitido - 1,35 m.
Média: Fêmeas: 1,28 m Machos: 1,30 m

Pelagem - Castanha comum, podendo tender para o escuro. Quase sempre sem sinais. Topete farto. Crinas pretas, tombando para ambos os lados. Cauda também preta.

Temperamento - Sóbrio, dócil, com muita vivacidade. É um cavalo de fundo, fácil de ensinar e resistente. 

Andamentos - Geralmente fáceis, rápidos, de pequena amplitude mas altos. Nos caminhos de montanha são firmes, a subir e a descer, e cuidadosos com pedras e obstáculos das estradas acidentadas.
Tendência natural para a Andadura (molliter incedere) * e Passo Travado (numeratim)**
* O cavalo executa balanceando-se e adiantando ao mesmo tempo os dois membros do mesmo lado, e neste passo metendo tanto a perna, que o pé se adianta sob a pegada da mão, sendo simultâneas as pancadas de cada bípede lateral. É o molliter incedere , andar suavemente.
** Cavalo executa levantando e apoiando separadamente cada membro, de modo que as pancadas de cada um se ouvem todas separadamente. É o numeratim dos romanos: um, dois, três, quatro, não como no passo no qual os apoios são dois a dois.

Aptidão - Sela e transporte de carga, com especial predisposição para tiro ligeiro (Atrelagem) e percursos de montanha.
 

Cabeça - Perfil recto, por vezes côncavo sendo esta última característica apanágio da sua pureza étnica. Cabeça fina mas vigorosa. O crânio insere-se sempre na face com grande inclinação, de forma que a parte superior da fronte é convexa de perfil; a crista occipital é pouco saliente em relação aos côndilos. Órbitas salientes sobre a fronte, transversalmente plana. Os olhos são redondos e expressivos. Narinas largas. Orelhas médias. Os dentes são característicos. As ganachas são fortes e musculosas.

Pescoço - Bem dirigido e musculoso, mas curto e grosso, especialmente nos garanhões.

Garrote - Baixo, mas destacado, com transição suave entre o pescoço e o dorso.

Peitoral - De amplitude média e musculoso.

Costado - De costelas chatas e verticais, inseridas obliquamente na coluna vertebral proporcionando um flanco harmonioso.

Garupa - Forte, arredondada e larga, tendente para o horizontal, de comprimento e largura de dimensões idênticas.

Espádua - Vertical e curta.

Dorso - Bem dirigido, tendendo para o horizontal.

Rim - Musculoso, um pouco convexo, bem ligado ao dorso e garupa.

Membros - Aprumados, curtos mas grossos. Fortes, quartelas direitas. Cascos cilíndricos.

 

 

 

 

 

 

História da Raça- IPVC in Candidatura a património Nacional

Presença milenar em Portugal, o cavalo Garrano constitui um elemento integrante do alto das serras e baldios e da paisagem humanizada do Minho.

A descoberta, em 1867, dos vestígios do Eohippus - o mais antigo antepassado directo do cavalo actual, com 65 milhões de anos - permitiu traçar uma história evolutiva directa até aos primeiros exemplares Equus caballus aparecidos há cerca de 1 milhão de anos.

Durante o Paleolítico médio a vida pré-histórica foi profundamente alterada pelo arrefecimento provocado pela ocorrência de glaciações. Nomeadamente durante a última glaciação (Würm), a fauna então existente foi compelida a migrações diversas.

Algumas espécies animais acompanharam o avanço e recuo dos gelos no continente europeu, como as renas. Os poneys do Norte da Europa seriam originários de equídeos que também acompanharam esta dinâmica populacional.

Outros equídeos encaminharam-se para o Sul da Europa, em busca de um clima mais benigno.

Estes fenómenos de modelação geográfica apenas abrangeram zonas reduzidas no território que é hoje Portugal. No território espanhol houve pequenas glaciações locais, nas cordilheira cantábrica e nas montanhas asturo-leonesas. Assim, foi possível que um grupo de equinos se tivesse radicado na Península Ibérica1.

É deste núcleo que descende o actual cavalo Garrano.

O Garrano é, portanto, um cavalo autóctone peninsular desde o período Quaternário2.

A arte paleolítica deixou vários testemunhos da presença dos Garranos na Península desde o Paleolítico superior, com destaque para a arte magdalenense pela sua extensa representação e realismo. Nas belas pinturas e gravuras das grutas de La Pasiega e de Altamira (Santander, Espanha), datadas de 20.000 a.C., os cavalos aparecem representados como pouco corpulentos, com as extremidades curtas, pelagem grossa e perfil da cabeça recto ou côncavo, num retrato fiel dos Garranos dos nossos dias.

O Garrano - IPVC in Candidatura a património Nacional

O Garrano, pelo contrário, seleccionado pelo meio natural a que tão bem se adaptou ao longo dos tempos e que condicionou as suas particulares aptidões e utilização - transporte em regiões de montanha, tracção e trabalhos agrícolas - manteve as suas características desde os tempos mais remotos até aos nossos dias.

Os romanos deixaram-nos as primeiras referências escritas sobre os Garranos, referindo os seus andamentos rápidos e cómodos. Bem adaptados aos caminhos de montanha, eram utilizados como correio e transporte de carga a dorso.

As invasões da Península Ibérica pelos povos germânicos (Visigodos, Godos, Suevos e Vândalos) não exerceram grande influência sobre os nossos cavalos pois estas conquistas foram realizadas a pé com uma presença reduzida de equídeos.

Os vestígios arqueológicos, as referências escritas que remontam aos Romanos, as lendas que empolgam a História - ajudou Viriato a resistir aos Romanos até ser traído por um dos seus generais, D. Afonso Henriques teria tido um Garrano como montada – testemunham a forte inserção do Garrano no Norte do nosso território, especialmente a partir do repovoamento da região no reinado de D. Dinis.

Na Idade Média são mencionados nas leis portuguesas e o seu comércio manteve-se activo entre a Península, a Irlanda e a Inglaterra. O cavalo apto para o transporte na montanha torna-se então o mais adequado para o trabalho agrícola, integrando activamente a vida rural e animando o folclore regional com as corridas de passo travado nas feiras tradicionais.

O pequeno cavalo Garrano revela-se como o mais adequado à lavoura do sistema agrícola de minifúndio, e ao transporte de pessoas e mercadorias com maior economia e segurança pelas íngremes e sinuosas vias de montanha. De tal modo que, apesar de algumas leis terem pretendido obrigar à criação de cavalos de maior porte, nas Cortes de Évora em 1490, os lavradores minhotos obtiveram de D. João II permissão para criarem éguas Garranas. A raça Garrana expandiu-se, depois, também às regiões Centro e Sul de Portugal.

O Garrano enquanto animal de prestação de serviços, ao ser um cavalo rústico que correspondia ao perfil de tracção necessário aos trabalhos agrícolas, acompanhou as descobertas dos novos mundos que Portugal deu ao mundo: ajudou no reconhecimento de novos continentes, na instalação do homem nas mais diversas paragens, no desenvolvimento de economias, deu origem a novas raças de equinos no México (Galiceño) e Brasil (Crioulo), transportou com idêntica precaução médicos, padres, senhores da nobreza e as mais singelas gentes do povo.

Elogiado por estudiosos e curiosos de vários tempos, o cavalo Garrano permanece o paradigma do ponéi de montanha português.
 

A Origem Céltica - IPVC in Candidatura a património Nacional

Os Celtas trouxeram cavalos de pequeno porte mas muito resistentes que acabaram por se cruzar com esta população equina autóctone refugiada nas regiões montanhosas do Norte da Península3. Aí se acantonou, então, o que se designou como cavalo celta (E.caballus celticus), característico das regiões montanhosas frias e húmidas - o ancestral mais recente do cavalo Garrano.

A reforçar esta hipótese da origem céltica dos Garranos, junta-se um interessante argumento de ordem filológica: em Portugal manteve-se a mesma raíz céltica que deu o «gearron» gaélico e o «garron» escocês, enquanto que a designação dos cavalos de pequeno alçado se internacionalizou com a designação de poney1. Ruy d’Andrade referia o facto de, em 1938, na Irlanda e por vezes em Inglaterra e na Escócia, ainda usarem o termo antigo «garron».

Segundo Ruy de Andrade (1930) “o comércio destes garrons ou Garranos foi activo desde os tempos pré-históricos e durante a Idade Média, desde a Irlanda e Inglaterra à península e vice-versa”. O pónei Highland é muitas vezes denominado na Escócia como “Garron Highland” o que vem de encontro ao escrito por este zootécnico português.

Mas é na Idade Antiga que se encontra o maior número de registos informativos sobre estes cavalos. Ruy de Andrade, ao traduzir Plínio na sua obra História Naturalis diz: “Na mesma Espanha há a nação Galaica e a Astúrica (galegos e asturianos) as quais criam cavalos (estes são os que chamamos tieldões e, quando mais pequenos, asturianos), dos quais o andamento não é vulgar...”. Neste documento diferenciam-se dois tipos de cavalos, segundo o seu tamanho e localização: os tieldões teriam dado origem ao nosso Garrano e os asturianos ao Asturcon; no entanto, também é latente nesta descrição a unidade existente entre estes dois tipos por possuírem um tipo raro de andamento – a andadura. O que nos induz a pensar que tieldões e asturianos seriam apenas duas variedades duma mesma raça.
 

Imprensa

Artigo escrito por Anabela Moedas na Revista "Ozono"

De pequena estatura, cor castanha, membros robustos e curtos, perfil côncavo e pescoço grosso adornado por uma densa crina o Garrano é provavelmente um representante longínquo da fauna glacial do fim do paleolítico. Hoje os exemplares que vivem em estado selvagem são poucos e a  raça está classificada como ameaçada.

 Nas encostas mais inóspitas do Parque Nacional da Peneda Gerês um grupo de garranos pasta calmamente. A presença de estranhos faz com que o macho relinche e o grupo se afaste. Os potros acompanham a mãe de perto e o macho de orelhas arrebitadas mantêm-se atento. É ele que zela pela coesão do grupo e o homem e o lobo são os seus principais inimigos.  

A raça garrana é uma das três raças de cavalos autóctones da Península Ibérica. Originária da fauna glaciar Paleolítica e representante do cavalo do tipo Celta das regiões montanhosas do Nordeste Ibérico, vive actualmente em estado semi-selvagem.

O cavalo garrano foi domesticado há vários séculos e estava perfeitamente integrado na vida rural do sistema agrícola de minifúndio no noroeste português. A mecanização da agricultura provocou o desinteresse dos criadores e o retorno dos animais para as zonas de montanha em regime livre. Nas primeiras décadas do século passado, com a submissão das serras portuguesas ao regime florestal, o garrano quase chegou a desaparecer.

Em 1945, por determinação do sub-secretário de Estado da Agricultura, são seleccionados 21 garranos, do efectivo pecuário local, e libertados no vale do Homem, entre as serras Amarela e do Gerês. O objectivo era fomentar a criação de reservas de animais autóctones em todos os perímetros florestais onde isso fosse possível. Alguns dos animais não se conseguiram adaptar, o que tornou necessário efectuar sucessivas aquisições até obter um núcleo de animais tipicamente serranos.

As razões que levaram à constituição do núcleo de garranos nem sempre foram bem compreendidas Várias vezes tentaram eliminar os cavalos, alegando que evadiam as pastagens destinadas ao gado doméstico e que prejudicavam a flora do Gerês. Mas a eliminação do núcleo de garranos geresiana não se chegou a verificar e em 1970, quando foi criado o Parque Nacional da Peneda Gerês, Lagrifa Mendes defendeu activamente as razões da sua existência. O último grupo de garranos selvagens do Parque Nacional viu assim preservada a sua existência.

Mas no Parque Nacional da Peneda Gerês existem outros garranos, que vivem em regime de semi-liberdade e têm dono. Os criadores particulares deixam os cavalos pastar em liberdade na serra durante todo o ano. Por volta dos dois anos os poldros são capturados e vendidos. Para a maior parte deles, o destino é o talho.

Nas últimas décadas os criadores começaram a libertar no monte outras raças de cavalos. O resultado foi inevitável - os garranos puros começaram a rarear.

Em 1994, o Serviço Nacional Coudélico define o padrão da Raça Garrana e inicia-se o Registo Zootécnico. Nesse mesmo ano a raça é classificada pela União Europeia como “raça ameaçada” e coube à Associação de Criadores de Equinos de Raça Garrana recuperar a raça do perigo de extinção. O Registo Zootécnico permitiu realizar a caracterização zootécnica e determinar o seu efectivo e a sua área de dispersão. Actualmente estão registados cerca de dois mil indivíduos - 1500 adultos e 500 poldros - dispersos por dezassete concelhos nas províncias do Minho e Trás-os-Montes.

Para José Vieira Leite, da Associação de Criadores de Equinos de Raça Garrana, “ a sistemática aferição dos cavalos Garranos ao Padrão traduz-se nas principais característica somáticas da raça.” Mas é preciso fazer mais para preservar a raça. “É necessário diversificar a utilização da raça numa perspectiva de adaptação do potencial do cavalo Garrano a novos utilizadores”. O garrano tem um elevado potencial como raça vocacionada para o turismo e escola de equitação. A exploração do turismo equestre nas regiões de montanha e o uso de garrano no ensino da equitação permite valorizar a raça e garantir o seu futuro.

Anabela Moedas in Revista Ozono

 

 

 

 

 

Home | Contactos | Passeios a Cavalo | Passeios Pedestres | O Garrano | O Lobo | Outras actividades | Links