O nosso amigo Lobo

 

 

 

 

 

 

 

 Fojos

 

Sobre o Lobo muito se pode dizer. No entanto, neste artigo que a Anabela escreveu em 2003, no seu característico estilo de reportagem, está bem patente a essência da vida deste animal.

Lobo-ibérico

O Predador encurralado

Perseguido desde há séculos, o lobo-ibérico é um sobrevivente. Resistiu às armadilhas, fojos, batidas, armas de fogo, laços e venenos. A sua atracção pelo gado doméstico valeu-lhe o estatuto de inimigo a abater. O conflito entre o homem e o lobo, baseado nos prejuízos e em mitos e crenças falsas, contribuiu de forma significativa para a regressão da espécie e é um dos grandes problemas da sua conservação.

“Andam a soltar lobos! O pessoal do Parque largou uma série de lobos no monte.” Frases como estas são facilmente ouvidas nas comunidades rurais. As versões são diversificadas e quase miraculosas, fundamentadas numa imaginação fértil e numa crença simplista – se se fazem repovoamentos de perdizes e coelhos bravos é natural que também se soltem lobos. Os presumíveis autores de tal proeza são sempre os técnicos do Instituto de Conservação da Natureza ou da Direcção Geral de Florestas ou ainda as Associações ambientalistas.

As populações rurais parecem acreditar que a reprodução dos lobos não é um fenómeno natural mas sim o resultado da sua libertação, às dezenas ou às centenas, na serra. E, por uma estranha coincidência, as estórias coincidem quase sempre, quer sejam contadas por um pastor de Arouca ou pelo dono do café de Castro Laboreiro. Contam que a libertação ocorre durante a noite e que os animais são transportados numa carrinha comercial, quase sempre branca. Também há quem diga que os lobos vêm pelo ar, em avionetas ou helicópteros. Mas uma coisa é certa, quem conta a estória nunca assistiu à libertação dos lobos – ouviu dizer ou conhece quem os viu soltar.

 A ideia generalizada de que existem soltas massivas e deliberadas de lobo, tão pouco credível e sem qualquer fundamento científico, ganhou foros de mito moderno e difundiu-se de uma forma espantosa. Para Francisco Álvares, biólogo e investigador do Grupo Lobo, esta crença dificulta o estudo e a conservação da espécie. “Em muitos locais do Noroeste de Portugal, somos olhados com desconfiança quando fazemos perguntas sobre a ocorrência de lobo.” Por vezes os ânimos exaltam-se e há mesmos pastores que passam à agressão física. “ É muito difícil falar com as pessoas e tentar implementar medidas de conservação quando elas pensam que somos um dos muitos que andam a soltar lobo por aí.” Ao mesmo tempo, a ideia de que estão a ser prejudicados deliberadamente aumenta o sentimento negativo em relação ao canídeo e contribui para intensificar o desejo do exterminar.

A origem deste mito parece estar relacionada com o desconhecimento da biologia do lobo. Muitos dos pastores estiveram emigrados durante quase toda a sua vida e quando regressam estão completamente desenraizados. Desconhecem a realidade natural e cultural da sua terra. Por outro lado, as variações bruscas nos efectivos e na distribuição do lobo, próprias da dinâmica natural da espécie, também contribuem para acentuar as desconfianças. O aumento de indivíduos no Verão, devido ao nascimento das crias, é visto pelos pastores com “ mais uma libertação de lobos na região.”

Outra das situações que parece justificar a crença é o aparecimento de lobos em locais onde já os consideram extintos. O uso de veneno destrói facilmente uma alcateia de quatro ou cinco indivíduos.  Muitas das vezes a população chega a encontrar os animais mortos e pensa que já acabou com eles. E de facto, durante um, dois ou mais anos, não há qualquer vestígio da sua presença. Mas, em zonas de boa densidade de lobo, a probabilidade do território ser recolonizado por animais dispersantes é grande. E assim, no próximo Verão, ou no seguinte, os pastores voltam a ver a fila indiana formada pelos lobos e seus lobachos. Então, exclamam indignados, “andam a soltar lobos.”

O inimigo do “rebanho de Deus”

Na Idade Média difunde-se a crença do lobo como animal mitológico, detentor de poderes sobrenaturais e malignos. São frequentes as suas representações como uma besta demoníaca e destruidora. Na origem desta convicção parece estar a Igreja Católica e a sua utilização do lobo como símbolo satânico, como animal que põe em causa o “rebanho de Deus”. O Homem Medieval, com um sentimento religioso bastante enraizado, depressa assimila esta ideia, atribuindo ao lobo uma dimensão mitológica e sobrenatural. Mais tarde, no final do século XVII, o francês Charles Perrault, publica o conto “ O Capuchinho Vermelho”, que, desde então, tem vindo a gravar no inconsciente de milhões e milhões de crianças a imagem do lobo feroz devorador de pessoas. De tal forma que, um recente estudo realizado pela equipa de terapia cognitiva comportamental dos Hospitais da Universidade de Coimbra aponta o “medo do lobo mau” como a pior das fobias infantis.

Francisco Álvares é peremptório, “os mitos e crenças, antigos e modernos, fomentam uma atitude negativa em relação ao lobo e estão na base do ódio ancestral que o homem lhe devota.” O conflito Homem-Lobo tem duas motivações. Por um lado, os prejuízos económicos causados pela predação do lobo no gado. Por outro, a questão cultural. Esta aversão ao canídeo levou à sua perseguição com ânimo de extermínio e, para tal, todos os meios foram válidos. No decorrer do século XIX e no início do século XX publicaram-se autênticos manuais descrevendo as mais variadas forma de exterminar o lobo.

Esta luta desigual teve consequências catastróficas para a população lupina, que, durante o século XX, sofreu uma acentuada regressão, tanto na área ocupada como no efectivo populacional. Nos anos trinta, o lobo ocorria praticamente em todo o território nacional e ocupava uma grande diversidade de biótopos de norte a sul do país. Hoje, está confinado às serras mais agrestes do Norte e Centro, distribui-se por uma área de cerca de 20 000 km2 e os principais núcleos de ocorrência estão nas montanhas que constituem o Parque Nacional da Peneda-Gerês, Parque Natural de Montesinho e Parque Natural do Alvão. De acordo com os estudos mais recentes – Projecto LIFE, 1996 – a população portuguesa de lobo-iberico (canis lupus signatus) conta com cerca de 300 animais distribuídos por cerca de 50 grupos familiares.

Os últimos redutos

A sua área de distribuição é descontínua. Existem duas populações separadas pelo rio Douro. A norte do rio existem sete núcleos populacionais – Peneda-Gerês; Alvão/Falperra; Padrela /Valpaços; Arga/Paredes de Coura; Cabreira/Barroso; Marão/Baião e Bragança/Montesinho. A Norte, o lobo distribui-se de uma forma contínua, excepto na Terra Quente Transmontana e na faixa litoral ente Viana do Castelo e Porto, onde já se extinguiu. Esta população é relativamente estável e está conectada com a restante população lupina espanhola através da Galiza e Castela-León.

Os núcleos populacionais que podem ser considerados estáveis localizam-se frequentemente nas zonas montanhosas, onde a densidade populacional humana é baixa. Pelo contrário, os que apresentam grande instabilidade estão em zonas mais humanizadas e em áreas marginais de ocorrência de lobo.

No distrito de Bragança o lobo ocupa essencialmente a parte Norte e Leste. A sua área de distribuição vai desde as serras da Coroa, Montesinho e Nogueira até aos planaltos de Miranda do Douro e Mogadouro e grande parte do vale do rio Sabor e áreas adjacentes. Aqui existem dezassete a vinte grupos familiares que contactam entre si e com a população espanhola. Este núcleo é parte integrante de um dos principais redutos ibéricos para a conservação do lobo, Bragança-Zamora, e parece ser o núcleo populacional mais estável do país. A pressão humana sobre a espécie não é muito grande pois o impacto da predação do lobo sobre o gado doméstico é baixo. A presença estável de várias espécies de ungulados selvagens e o tipo de maneio de gado praticado nesta zona fazem com que os prejuízos do lobo sejam relativamente baixos.  

Outro dos núcleos populacionais mais estável habita as serras agrestes do Noroeste de Portugal, na zona fronteiriça com a Galiza, que se incluem na área do Parque Transfronteiriço Gerês – Xures e serras envolventes, Larouco e Cabreira. Aqui existem doze grupos familiares, com um efectivo de 5 a 10 lobos e com reprodução regular. Em determinados anos, há alcateias que, durante o Outono e Inverno, possuem mais de doze lobos.

Até quando poderão aguentar?

Ainda na área de influência do Parque Nacional da Peneda-Gerês (área em que o PNPG paga os prejuízos do lobo) e no extremo noroeste da área de distribuição do lobo em Portugal, existe um pequeno núcleo – Arga/Paredes de Coura – que está gravemente ameaçado. É constituído por três grupos: Arga, Boulhosa e Cruz Vermelha. Esta última, ocupa as serras a sul de Paredes de Coura até ao Rio Lima e em 1996 criou pela última vez. Desde aí não há qualquer evidência de reprodução. Nos dois últimos anos os indícios da sua presença têm vindo a diminuir cada vez mais, não há avistamentos nem prejuízos. Tal situação leva Francisco Álvares a questionar a existência desta alcateia. “Parece tratar-se de uma zona que, de vez em quando, é utilizada por lobos dispersantes e onde a sua presença é ocasional.”

No grupo familiar de Arga, que ocupa as serras de Santa Luzia e de Arga, houve evidência de reprodução regular até 2001. No início da década de 90, na Serra de Santa Luzia, onde há mais de 10 anos não havia qualquer vestígio da existência de lobo, vários garranos foram atacados. Inicialmente, pensou-se que os prejuízos fossem provocados pelos cães vadios, mas, durante o trabalho de campo efectuado no âmbito do projecto LIFE, confirmou-se a ocorrência de lobos na Serra. Os ataques começaram a verificar-se a partir do momento em que se fomentou a criação de garranos em semi-liberdade na zona. A disponibilidade alimentar numa área de serra que não possuía recursos tróficos para o lobo parece explicar a ocorrência mais regular dos lobos vindos da serra de Arga. Mas a sobrevivência deste grupo familiar ficou seriamente comprometida com a construção da AE3, entre Cepões e Fontoura, que a isola completamente . A agravar a situação, este ano Francisco Álvares – apesar de ter duplicado o esforço de monitorização – não detectou qualquer evidência de reprodução nesta alcateia.

A alcateia da Boulhosa, que ocupa as serras a norte de Paredes de Coura, fazia, antes da construção da A3, o contacto entre os núcleos Arga/Paredes de Coura e Peneda/Gerês. É um grupo familiar que cria com alguma irregularidade e onde este ano também não houve evidências de reprodução.

 Nos últimos oito anos, Francisco Álvares tem vindo a desenvolver um estudo de monitorização do lobo no Noroeste de Portugal, co-financiado pelo PNPG e pelo Grupo Lobo. Os resultados não lhe deixam dúvidas. “ Fora do limites do Parque Nacional da Peneda-Gerês, mas dentro da área da sua influência, o lobo está a regredir.” A alcateia da Serra do Maroiço, concelho de Fafe, desapareceu. Em 1994, poderá ter criado. Desde aí extinguiu-se como reprodutora, não há avistamentos e os prejuízos são muito ocasionais. “Parece ser uma zona onde de vez em quando os lobos passam.” Para complicar, “é uma área onde há cães vadios, o que “mascara” completamente os dados de prejuízos e os dejectos que se possam encontrar.”

As alcateias do núcleo de Arga e a da Serra do Maroiço permitiam que houvesse uma zona tampão com o PNPG. Quando estas desaparecerem, as dos Parque começam a ser as limítrofes. E, essa realidade parece não tardar. Francisco Álvares teme pelo futuro do núcleo de Arga. A alcateia da Cruz Vermelha poderá estar numa situação de pré-extinção e as outras podem “não durar mais do que dois ou três anos.”

A par da perseguição directa e do efeito barreira das infra-estruturas, o abandono da agricultura e a diminuição galopante dos rebanhos de ovinos e caprinos e das manadas de vacas explicam o desaparecimento e regressão do lobo nesta zona. As aldeias estão a ficar desertas e a ruralidade destas zonas está-se a perder.

Estradas – morte e isolamento

Mais para sul e para o interior, o núcleo populacional de Alvão/Falperra ocupa a região montanhosa entre Vila Real e Vila Pouca de Aguiar, que inclui as Serra do Alvão e da Falperra e a serra a Este de Vila Real. É formado por cinco grupos familiares relativamente estáveis, com um efectivo de animais bastante razoável. Dentro da área do Parque Nacional do Alvão, a dieta do lobo baseia-se essencialmente no consumo de gado caprino e a disponibilidade alimentar é elevada.

A principal ameaça para este núcleo é a humanização do vale do rio Corgo, que limita o fluxo dos lobos, e toda a rede de infra-estrutura rodoviárias já construídas ou que estão em fase de projecto

A sul do Douro, a sobrevivência do lobo é muito mais complicada. Os dois núcleos populacionais – Arada/Trancoso e Figueira de Castelo Rodrigo/Sabugal – estão isolados do resto da população lupina, e possivelmente também entre eles, e são constituídos por grupos familiares muito instáveis e dispersos. O núcleo situado perto da fronteira de Espanha poderá ter desaparecido. Na alcateia de Figueira de Castelo Rodrigo não há evidências de reprodução desde 1994 e, nos últimos anos, nem sequer há vestígios da sua presença. O grupo familiar da Malcata também terá desaparecido há cinco ou seis anos. A falta de alimento e a perseguição directa parecem ter sido as causas desta extinção. Os últimos indivíduos foram mortos ilegalmente por caçadores.

O núcleo Arada/Trancoso é provavelmente o único biologicamente viável na Península Ibérica a sul do rio Douro. Está confinado às regiões montanhosas da Beira Alta e ocupa as serras da Freita, Arada, Montemuro, Leomil e Lapa. Os resultados dos censos de 1996 apontam para cerca de trinta animais, distribuídos por seis a sete grupos. Em 2002, na opinião de Francisco Fonseca, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e presidente do Grupo Lobo, “a população deste núcleo deve estar relativamente estável e deve manter-se nos trinta indivíduos.” Mas as pressões sobre estes grupo são imensas. As vias rápidas e os parques eólicos continuam a surgir, contribuindo para a fragmentação da populações e aumento da mortalidade. “Embora todos os anos haja evidências de reprodução, a população mantém o mesmo número de efectivos.” A taxa de mortalidade parece acompanhar a da natalidade. Entre as causas de morte, sobressaem os atropelamentos. A perseguição directa parece ter diminuído em resultado do crescente abandono da pastorícia. Mas, o crescimento da população de javalis contribuiu para o aumento do número de laços, onde os lobos acabam por cair.

Urge atenuar o conflito Homem-Lobo

Para Francisco Álvares, “a perseguição directa é um dos factores que mais afecta a conservação do lobo.” E, em toda a área de distribuição da espécie, “a região do Parque Nacional da Peneda-Gerês é a zona onde esse conflito atinge maiores proporções.” A população lupina que ocupa este território alimenta-se basicamente de animais domésticos, principalmente de bovinos e equinos. “A dependência trófica do lobo por estes herbívoros é tal que, nas zonas desta região onde existem grandes efectivos pecuários, o lobo ocorre nas densidades mais altas conhecidas na Europa.” Isto faz com que os pastores do PNPG sintam bastante o impacto do prejuízos associados à predação sobre o gado doméstico.

Por outro lado, a componente cultural, que atribui ao lobo uma imagem negativa, é muito evidente nestas populações. Daí, a necessidade do seu estudo. Para Francisco Álvares, “o estudo e salvaguarda desta manifestações pode-nos ajudar a compreender as atitudes das comunidades rurais face ao lobo, permitindo soluções para atenuar esse conflito.” A conservação desta espécie em zonas humanizadas só é possível através da diminuição do conflito Homem-Lobo e isso pode ser conseguido através da sensibilização e da educação ambiental. “As pessoas conhecem apenas o lobo das lendas e ultrapassar essa situação é um passo fundamental para a conservação deste predador.” Além disso, e porque a distribuição do lobo coincide com zonas de montanha desfavorecidas economicamente, “é urgente implementar medidas que melhorem o rendimento económico das populações rurais, nomeadamente através da diminuição dos prejuízos e de acções que promovam a valorização económica e turística da imagem do lobo.” A promoção de um ecoturismo que tire partido de aspectos biológicos deste animal e do património cultural a ele associado pode gerar receitas para a população e fazer com que estas “vejam o lobo com outros olhos.” 

Um sistema com atrasos e injusto

Em 1971, quando o Parque Nacional da Peneda-Gerês foi criado, implementou-se o sistema de indemnizações dos prejuízos provocados pelo lobo. Nessa altura, os danos só eram pagos quando ocorriam dentro da área do Parque. Em 1988, com a aprovação da Lei 90/88, o lobo foi declarado espécie protegida e nessa altura procurou-se criar um mecanismo que resolvesse de forma eficaz os conflitos originados pelo carnívoro. Este mecanismo, que só foi regulamentado no decreto-lei 139/90, baseia-se no pagamento dos prejuízos causados pelo lobo nos animais domésticos, em toda a área de ocorrência do predador. Só que a lei que prevê as indemnizações não determina o seu financiamento. Resultado, sistematicamente os pagamentos são feitos com atrasos de um ou mais anos.

Segundo Inês Barroso, técnica da Divisão de Espécies Protegidas do ICN, essa situação está contornada. “A antiga presidência conseguiu fazer algumas adaptações no sistema de obtenção dos fundos para os pagamentos, de forma a disponibilizar atempadamente a verba.” Muitas áreas têm já os prejuízos pagos até Julho. “Ainda não estamos dentro do prazo legal, segundo o qual temos dois meses para indemnizar os proprietários, mas já conseguimos reduzir os atrasos que tínhamos de dois anos. Para Inês Barroso essa redução foi um passo importante. “Os atrasos eram incomportáveis por parte dos proprietários e também por parte de quem trabalha na área da conservação. É impossível passar qualquer mensagem conservacionista e esperar uma mudança de atitude quando as pessoas sentem limitações e problemas por não serem indemnizadas atempadamente.”

O actual sistema de indemnizações tem sido alvo de várias críticas. Por um lado não proporciona pagamentos expeditos e justos, e por outro contribui para acentuar o desleixo de alguns pastores em relação  à segurança dos seus próprios rebanhos. “Devíamos ser mais críticos em relação a este sistema”, garante Francisco Álvares. “Todos nós sabemos que tem vários problemas, nomeadamente nas zonas de gado extensivo, onde os equinos e bovinos pastam em liberdade.” Uma alcateia com quatro ou cinco lobos facilmente ataca um vitelo ou um poldro. Quando o pastor vai à procura do animal, raramente o encontra. Como não há vestígios, não é indemnizado. Depois, há também aqueles que usam o lobo como bode expiatório e quando a vaca morre na corte (estábulo) levam-na para o campo e chamam os vigilantes da natureza para que estes façam o registo de “ mais um ataque”. Acaba por ser um sistema perverso e injusto que não responsabiliza os proprietários nem ajuda a conservar o lobo.

Medidas que ficaram na gaveta

 Os técnicos do grupo de trabalho do Instituto da Conservação da Natureza (ICN) na área do lobo, cientes das limitações legislativas, elaboraram uma proposta de alteração da Lei do Lobo, de forma a adaptá-la aos sistemas de maneio de gado existentes em Portugal e a promover a protecção do gado por parte dos pastores. Uma das alterações diz respeito aos requisitos mínimos para haver indemnização. “Identificámos seis sistemas tradicionais de pastoreio nas áreas de ocorrência do lobo e, para cada um deles, foram identificados os requisitos mínimos necessários para que possa haver indemnização”, explica Inês Barroso. “Essa proposta foi apresentada superiormente e já foi muito discutida entre o ICN e outras entidades. Esperamos que seja aprovada rapidamente e publicada.” Ainda na perspectiva de diminuir o conflito Homem-Lobo, “preparámos e apresentámos um pacote de medidas para apoiar os criadores de gado e ajudá-los a cumprir as regras para uma protecção eficiente dos rebanhos.” A atribuição de prémios aos pastores que tivessem cães de gado de raças nacionais e que tivessem gado autóctone; o incentivo económico aos criadores que restringissem a dimensão da manada de forma a garantir a segurança da mesma, eram algumas das medidas preconizadas. “Tentámos propô-las como agro-ambientais, pois achámos que se encaixavam perfeitamente.” Mas, infelizmente, estas propostas ainda não foram encaixadas. Não lhe foi dado espaço no âmbito das medidas agro-ambientais. “Esperamos que seja encontrada uma outra hipótese para as implementar. Esta questão já foi apresentada superiormente. Já alertámos para a necessidade destas medidas serem praticadas aquando da saída da nova legislação. Nessa altura, vão ser exigidas novas condicionantes e é importante que os pastores sejam apoiados na obtenção desses requisitos”

Cães de gado, um sistema eficaz

Também para diminuir os conflitos entre os criadores de gado e o lobo, O Grupo Lobo, em 1996, iniciou um projecto de recuperação do uso tradicional dos cães de gado para protecção dos rebanhos. Na fase inicial utilizou-se apenas o cão de Castro-Laboreiro. Mais tarde, a iniciativa integrou outras raças de cães de gado nacionais – o cão da Serra da Estrela e o Rafeiro Alentejano. Sílvia Ribeiro, bióloga do Grupo Lobo, está bastante satisfeita com o sucesso deste projecto. “Nos primeiros anos foi complicado encontrar pessoas que estivessem disposta a receber um cão. Depois, começaram a ver que os animais eram eficientes e aderiram ao projecto. Hoje, são os pastores que nos vem pedir mais cães.” Desde então, integraram 50 animais.

O desempenho dos cães foi avaliado de acordo com três critérios – número de prejuízos, satisfação dos proprietários e comportamento o animal. O resultado foi bastante bom. “Os prejuízos tiveram uma redução geral de cerca de 33 a 100% e mais de 95% dos pastores considera o cão muito eficiente. A maioria diz que a diminuição dos prejuízos se deve à sua presença no rebanho.”

O projecto, “Contributo para a minimização do impacto económico dos predadores sobre os animais domésticos” teve dois objectivos. Diminuir o impacto predatório do lobo e dos cães assilvestrados e contribuir para a recuperação de duas raças autóctones de cães de gado tradicionalmente empregues na protecção dos rebanhos – o cão de Castro-Laboreiro e o cão da Serra da Estrela. Para Sílvia Ribeiro a principal virtude deste trabalho foi “combater o cepticismo revelado pelos vários sectores, públicos e privados, e demonstrar que a utilização dos cães de gado, como medida de prevenção dos ataques de predadores, é útil, exequível e de baixo custo, e a sua aplicação necessita apenas do envolvimento de todos os intervenientes.”

Dentro desta linha de trabalho, o Parque Natural de Montesinho tem também vindo a implementar a utilização do cão de gado transmontano – um animal de grande porte, do tipo mastim – para diminuir os ataques do lobo

Barreiras visuais, um método alternativo

Actualmente, o Grupo Lobo continua a monitorizar os cães distribuídos e a integrar outros. Agora, no âmbito do projecto “Novas soluções para o controlo da predação dos animais domésticos”, a decorrer desde Julho de 2001, que pretende avaliar a viabilidade e a eficácia da utilização de métodos alternativos de protecção dos animais domésticos. “Em função do sistema de pastoreio utilizado em Portugal e das características ambientais da área de distribuição do lobo ibérico, vamos utilizar medidas de prevenção da predação, tais como cercas eléctricas e barreiras visuais.” Um dos métodos a ser implementado é a utilização de bandeiras (fladry), barreiras visuais formadas por cordas com tiras pendentes de pano colorido. A utilização das bandeiras teve origem na Europa de Leste e na Rússia e era utilizada para caçar lobos. Esta técnica tem por base a colocação de tiras de pano coloridas a uma distância definida, suspensas por uma corda horizontal, delimitando a área que se deseja proteger. Em virtude do movimento das tiras, por acção do vento, os lobos tendem a não se aproximar da área onde estas estão colocadas.  

Estudos recentes com lobos em cativeiro, têm demonstrado que a utilização de barreiras visuais pode impedir a sua aproximação de uma fonte de alimento, podendo assim, proteger o gado dos ataques, pelo menos temporariamente. Actualmente, em alguns países Europeus – Itália e Roménia – esta técnica está a ser reconvertida para a conservação do lobo.

Ainda há salvação?

A sul do Douro, o Grupo Lobo está a desenvolver um outro projecto que tem por objectivo avaliar a situação destas alcateias, analisar as atitudes públicas para com o lobo e apontar medidas para salvar a população lupina do Sul do Douro. Com este estudo, Francisco Fonseca pretende “identificar algumas medidas que possam ser postas em prática para criar zonas de expansão ou zonas de ligação para as áreas onde o lobo desapareceu há poucos anos e para a zona da fronteira.” Estas medidas poderiam permitir a expansão natural dos lobos do núcleo da Serra da Lapa, Arada e Leomil para uma zona de baixa densidade humana, onde o lobo desapareceu há cinco ou seis anos (Malcata e Figueira de Castelo Rodrigo).

Por outro lado, o estudo pretende analisar as atitudes públicas para com o lobo. “Estamos a tentar ver quais são os sectores da sociedade que são contra ou pró lobo, para poder saber quais as medidas que podemos tomar com cada um deles, no âmbito da conservação do lobo.” Por enquanto ainda não há resultados. “Estamos na fase de recolha de informação, junto das escolas, organizações de criadores de gado e caçadores. Se a chuva o permitir, no final de Dezembro o trabalho de campo estará realizado.” Depois virá a fase de análise de toda essa informação. No fim será identificado um conjunto de medidas necessárias para a conservação do lobo.

Para já, o grupo de trabalho que está a realizar o estudo tenta abrir as portas para que no futuro essas acções possam vir a ser realizadas. “Estamos a tentar identificar áreas para reintroduzir o corço e, ao mesmo tempo, temos vindo a falar com os caçadores. Tentamos saber qual o interesse e qual a possibilidade de cooperação com outras entidades.” Têm também procurado identificar corredores ecológicos que permitam o fluxo dos lobos. Entretanto, foram encetados contactos no sentido de evitar ou atenuar a sua destruição.

Conhecer para proteger

 Outros dos projectos no âmbito do estudo e da conservação do lobo foi implementado pelo ICN e iniciou-se em Setembro de 1999. O “Sistema de Monitorização de Lobos Mortos” pretende envolver três instituições base. O Museu Nacional de História Natural, para continuar e melhorar a colecção de referência que existe. O Laboratório Nacional de Investigação Veterinária, para identificar a causa de morte. E o ICN, na recolha e condução dos animais. O projecto, como todos os que envolvem várias entidades, teve algumas dificuldades e o sistema acabou por funcionar apenas durante um ano. Nessa altura foram analisados doze lobos mortos. Actualmente existem cerca de vinte animais para serem necropsiados. “Mas – afirma Inês Barroso – neste momento temos as peças asseguradas para voltar a implementar o projecto.” A técnica do ICN espera que “no início de 2003 o Sistema de Monitorização entre, inicialmente, numa fase de maior velocidade, para tratar de tudo o que está armazenado, e depois numa velocidade de cruzeiro, para que se possa tratar de uma forma tão rápida quanto possível os animais que são encontrados.” Para Inês Barroso uma das vantagens deste projecto é “a brevidade em que é determinada a causa de morte do lobo, o que vai permitir agir atempadamente quando a situação o justificar.”

Para além da monitorização das causas de morte, o projecto tem também o objectivo de funcionar como banco de tecidos e material genético que será disponibilizado às entidades científicas que o solicitem no âmbito dos seus estudos. Para tal, o ICN contactou várias instituições, em Portugal e no estrangeiro, para saber quais as suas necessidades e para divulgar a existência desse material. Com este trabalho, pretende-se também aumentar e melhorar a colecção de referência do Museu Nacional de História Natural. Inês Barroso acredita que “este sistema, ao determinar a causa de morte, possa vir a contribuir para implementar medidas que a evitem, quando for caso disso.” Por outro lado “esperemos que, no futuro, os resultados dos estudos realizados com o material disponibilizado possam ser utilizados para implementar medidas de gestão para a conservação do lobo.”

Há ainda que trabalhar muito!

Ainda há muita coisa por fazer para assegurar a conservação do lobo em Portugal. O combate ao uso do veneno, um grande flagelo para a espécie, através de campanhas de sensibilização juntos das comunidades rurais e através de uma maior fiscalização no campo, é uma das prioridades. Com esse objectivo está-se neste momento a tentar implementar um grupo de trabalho anti-veneno, à semelhança do que foi feito com o “ Programa Antídoto”, em Espanha. Esta ideia surgiu em 1999, no decorrer de um simpósio sobre veneno, que se realizou em Mértola. Teve “um parto difícil”, mas, recentemente – durante o 1º Encontro Ibérico de Recuperação e Conservação de Fauna Selvagem, em Castelo Branco – começou a desenvolver-se. O “programa nacional contra a acção dos venenos sobre a fauna selvagem” pretende envolver várias ONGs e entidades públicas e pretende formar um grupo de trabalho que possa vir a diminuir o impacto da mortalidade em muitas espécies da fauna.

A diminuição das presas naturais do lobo é outro factor que continua a ameaçar a espécie. Nesse sentido o Parque Natural do Alvão desenvolveu uma série de acções de melhoramento e gestão do habitat, com o objectivo de permitir a recuperação e estabilização das populações naturais de presas. Em 1997, foram também feitas reintroduções com corso a sul do Douro. Posteriormente, uma equipa da Universidade do Porto, num projecto liderado pela Direcção Geral de Florestas, reintroduziu animais de origem francesa na Beira Interior. Mas, para Francisco Fonseca é necessário identificar mais zonas para reintroduzir o corço.

A norte do Douro, a reintrodução não pode ser encarada com leviandade, pois aí já existe uma população de corço autóctone. Por outro lado, e na opinião de Francisco Álvares, “ a população de corço a norte do Douro está a ter uma expansão natural e, se não cresce mais é porque não lhe dão condições para isso.” A caça furtiva, os incêndios e a destruição de habitats propícios ao corço, estão na origem desse impedimento. Para o biólogo “um plano de gestão para o corço a norte do Douro, deveria investir na reflorestação e no combate ao furtivismo e, quando fosse caso disso, num reforço da população com indivíduos autóctones, vindos de áreas com maiores densidades.”

A elaboração de um plano de acção nacional para a conservação do lobo é outra das prioridades para a conservação desta espécie. Portugal tem, por compromisso com a Comunidade Europeia, de desenvolver, tão rápido quanto possível, planos de acção no âmbito de um grupo de grandes carnívoros sobre alçada do Concelho da Europa. “Também por isso – afirma Inês Barroso – deveríamos desenvolver o mais rápido possível o Plano de Acção para o lobo.” Porque, no fundo, “é num Plano de Acção que estão identificadas todas as acções e todas as parcerias que são necessárias estabelecer para que todo o País e todas as entidades, que de alguma forma podem apoiar ou comprometer a conservação do lobo, colaborem.”

Mas, apesar de estar muito por fazer, este ano deu-se um passo que poderá ter marcado o início de uma nova fase para a conservação do lobo em Portugal. Pela primeira vez, durante a realização do “Censo Nacional de Lobo. Ano 2002”, conseguiu-se juntar os vários investigadores que trabalham em lobo e conseguiu-se que todos trabalhassem em conjunto, com uma metodologia comum. Por outro lado, a utilização de uma metodologia de campo semelhante e comparada à utilizada em Espanha permitirá, pela primeira vez, o censo ibérico de uma espécie animal ameaçada, com recurso a uma metodologia de campo uniforme. O relatório de progresso deverá estar disponível durante o primeiro trimestre de 2003.

 

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